Ashwagandha: o que é, para que serve?

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Sim, nome estranho, ashwagandha, a pronúncia aproximada em português é ACHUAGANDA. É o nome de uma planta. A palavra vem do sânscrito, uma das línguas oficiais da Índia, e significa “cheiro de cavalo”, nome sugestivo relacionado a uma das propriedades da planta, a de renovar as forças (trazer-nos a força do cavalo), mas na realidade devido a seu fortíssimo cheiro. Vamos conhecer um pouco mais, então, da ashwagandha?

Ao mesmo tempo em que ela dá energia, ela ajuda a pessoa a dormir melhor. Isso parece contraditório, numa primeira análise superficial, mas essa planta que tem sua origem nas altas montanhas da Cordilheira do Himalaia, a ashwagandha, já era usada há milhares de anos na tradicional medicina indiana conhecida como ayurvédica. A associação com a ashwaganda não é acaso, porque “ayurveda” significa ciência da longevidade – a ashwagandha melhora as condições gerais de vida e proporciona um incremento à vida mais longa.

Ashwagandha não é exatamente um remédio, ou, se for assim considerado, seria um fitoterápico. O nome popular da planta, no Brasil, é cereja de inverno.

ashwagandha para que serve

Ashwagandha também contra câncer? E para que mais?

A cereja de inverno tem propriedades revigorantes, ou seja, ela aumenta os níveis de energia do corpo, por isso é também conhecida como ginseng indiano.

A condição de auxiliar para uma melhoria no sono já está em seu nome científico: Withania somnifera. A ashwagandha é uma planta que pertence à família das solenáceas, como o tomate, tem seus frutos vermelhos e as flores amarelas, sendo que as raízes e os frutos carnosos (bagas) são os pontos de concentração de seu poder curativo.  É utilizada no tratamento da impotência sexual, do estresse e do cansaço provocado por esforço físico e mental.

Em termos, digamos, mais técnicos, a ashwagandha, é considerada uma planta adaptógena, quer dizer, planta capaz de aumentar a nossa capacidade de adaptação e resistência a condições extremas de frio, de exigência física, psicológica ou de estresse, Isso ocorre porque ela otimiza o funcionamento de nossas glândulas suprarrenais, o que melhora a nossa resposta ao estresse.

Ryan Falsey, da Faculdade de Medicina da Universidade do Arizona, tem explorado os efeitos anticâncer da ashwagandha. Ele explica: “Os médicos ayurvédicos usaram cereja de inverno para tratar câncer durante anos, mas seu uso não é bem documentado. A maior parte das informações foram passadas de geração para geração, assim, nada foi documentado cientificamente.”.

O que essa sabedoria ancestral a sem o uso da escrita afirma é que a ashwagandha é capaz de estimular o sistema imunológico, aumentando nossos níveis de energia e ao mesmo tempo diminuindo uma produção excessiva de cortisol. Pelo fato de diminuir o cortisol, que é a causa mais comum das insônias associadas ao estresse, a ashwagandha é indicada como auxiliar na redução do estresse. Pelo fato de o aumento nos níveis de cortisol levar a aumento na pressão arterial, a ashwagandha é também um diminuidor da hipertensão. De quebra, ela é capaz de atenuar efeitos ansiolíticos de forma semelhante à do lorazepan (medicamento muito usado para tratar a ansiedade), tendo ainda revelado efeitos antidepressivos. A ashwagandha também está sendo considerada como capaz de aumentar a nossa capacidade de memória e nossa capacidade cognitiva devido às suas capacidades antioxidantes e à sua condição de aumentar a atividade do receptor da acetilcolina, neurotransmissor importante no sistema nervoso central, no qual estão envolvidas a memória e a aprendizagem. Por isso, também tem tido resultados bem interessantes como auxiliar no tratamento da doença de Alzheimer.

O que a ciência ocidental descobriu é que o agente medicinal ativo da cereja de inverno, conhecido como Withaferin A, demonstrou atividade anticâncer significativa, tanto em pesquisas feitas no tubo de ensaio, quanto em modelos animais. O mesmo pesquisador Ryan Falsey dá um exemplo: foram implantadas células de tumores de sarcoma de Ewing, um tumor ósseo maligno, em ratos, os quais foram tratados com Whitaferin A e, depois de 10 dias, uma inibição da ordem de 66% nos tumores. A pesquisa de Falsey descobriu que o Whitaferin A liga-se à proteína Annexin 2, formando uma combinação que é tóxica para as células de câncer, conseguindo matá-las. Isso significa a maravilhosa condição de ser uma quimioterapia menos tóxica e mais eficiente do que as convencionais.

Animais tratados com ashwagandha que receberam radiação apresentaram uma diminuição menor na produção de leucócitos da medula óssea. Um efeito protetor similar foi registrado em animais que tomaram ashwagandha antes de receberem uma dose de um potente remédio contra o câncer, a ciclofosfamida.

A ashwagandha pode ter um efeito direto na limitação do crescimento das células cancerígenas. Extratos de ashwagandha possivelmente aumentam a sensibilidade das células cancerígenas aos efeitos da terapia de radiação. A combinação da sua capacidade de proteger células saudáveis, enquanto tornam as cancerígenas mais suscetíveis a tratamento, sugere que a ashwagandha talvez desempenhe um papel importante na moderna terapia do câncer. São necessários estudos mais aprofundados para determinar se esse benefício potencial pode ser válido para as pessoas.

 

As maneiras de aproveitar a ashwagandha

Um chá feito a partir das raízes da planta, na forma de infusão (colocar água quente para extrair o princípio ativo) ou fervendo-se as raízes durante 15 minutos, é uma das maneiras de administração das maravilhas da ashwagandha. Para disfarçar o sabor amargo, pode-se adicionar ao chá algum suco de frutas, mas isso dificulta a medição de quanto do princípio ativo estamos ingerindo.

A ashwagandha também se apresenta sob a forma de comprimidos, estes, sim, permitem uma aferição do princípio ativo ingerido. O efeito é lento: algumas semanas com uso contínuo diário permitem observar a plenitude dos efeitos benéficos da planta. Se ingerida pela manhã, o efeito mais notável será o de aumentar os níveis energéticos; se ingerida à noite, a condição de dormir melhor será o efeito mais perceptível.

Natural, mas cuidado com o mau uso

Nem tudo o que é natural faz bem. Como diz o doutor Anthony Wong, toxicologista e Diretor-médico do CEATOX – Centro de Assistência Toxicológica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo –, das 10 substâncias mais tóxicas que se conhecem, 8 são naturais.

No caso da ashwagandha, deve-se tomar o cuidado de não associá-la a outros remédios ou bebidas, ao menos isso deve ser informado ao médico, e ele é quem deve verificar se a associação é bem-vinda ou não. Alguns casos de associações em que se deva tomar cuidado são: barbitúricos, álcool (devido as efeitos sedativos de ambos) e imunossupressores (remédios utilizados, por exemplo, para doenças autoimunes, como a artrite reumatoide, ou em caso de rejeição em transplantes).

Nas milhares de transmissões orais das informações sobre a ashwagandha, há relatos de uso em altas doses que acabou induzindo a aborto, por isso o uso para mulheres grávidas é desaconselhado.

Várias empresas americanas que comercializam ervas atualmente vendem ashwagandha em doses de 300 a 500 mg. A dose normal é de 600 a 1.000 mg, duas vezes ao dia. Uma pastilha ou colher das de chá de ashwagandha em pó, esmigalhada no leite quente e adoçada com mel ou açúcar, intensifica suas qualidades sedativas.

Rejuvenescedor, estimulante, calmante…

O conhecimento ancestral aponta a ashwagandha como rejuvenescedor básico da energia masculina, por isso há quem brinque com o significado original, associando aos garanhões. No Instituto Brasileiro de Terapias Ayuerveda, a ashwagandha é usada por seu efeito tônico e rejuvenescedor, indicado para pessoas que se queixam de fadiga, de dificuldade de concentração e de um senso geral de desligamento.

Tomada à noite com leite morno, antes de dormir, tem sido eficiente para pessoas com insônia e ansiedade. De fato, um dos usos clássicos de ashwagandha é o de acalmar a perturbação mental. Algumas pesquisas que examinaram a influência da ashwagandha sobre o cérebro registraram efeitos sobre os receptores GABAA, onde atuam os remédios tranquilizantes, como Valium e Ativan.

A ashwagandha tem sido usada também em casos de artrite, tuberculose,  asma, leucoderma (uma doença de pele marcada por placas e manchas brancas), bronquite, dor nas costas, fibromialgia, problemas menstruais, soluços e doença hepática crônica. Algumas pessoas usam-na também para melhorar a capacidade de raciocínio, diminuir inflamação e prevenir os efeitos do envelhecimento, problemas de fertilidade em homens (porque há relatos de diminuição da oligospermia, ou seja, a insuficiência de espermatozoides no sêmen) e mulheres e também para aumentar o desejo sexual.

Sob forma de pomada, a ashwagandha pode ser aplicada sobre a pele para tratamento de feridas, dores nas costas e himplegia (paralisia de um dos lados do corpo).

Nova panaceia ou…?

O doutor Dráuzio Varella, conhecido oncologista brasileiro, sempre repete uma frase que atribui a um professor seu da época da faculdade: “remédio que serve para tudo não serve para nada”. Esta ideia de cura para tudo está exatamente na origem do nome grego Panaceia (pan – todo; akos – remédio), que era a deusa da cura na mitologia grega antiga.

O ashwagandha pode ser assim encarada, no mau sentido do termo, que é o contido na frase citada por Varella. Há relatos na China de mortes causadas por intoxicação devida ao uso de plantas inadequadas, em virtude de ter havido engano na hora de colher-se uma raiz. Outro problema é que, na forma bruta, não se sabe se a substância ativa exigida para determinados distúrbios estará presente na quantidade adequada.

A ashwagandha não é um remédio, ela deve ser encarada como uma planta com alguns princípios ativos ainda não devidamente estudados e que podem auxiliar em tratamentos para certos distúrbios. Não há nada de mal em confiar na sabedoria milenar da Índia, mas também não há nenhum mal em consultar especialistas ocidentais para verificar qual o melhor uso de qualquer substância. Afinal, a medicina é uma só e tem um objetivo comum, tanto no Ocidente quanto no Oriente: auxiliar a melhorar a condição geral da vida das pessoas. O bom uso da ashwagandha converge para esse objetivo e é assim que ele deve ser encarado. Ela é encontrada em algumas casas de ervas, vendida no balcão ou pela internet.

Claudionor Aparecido Ritondale 

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