Ayurveda, a ciência da vida

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Estava eu numa rotina cansativa de banco, na época em que era burocrata, tentando me desvencilhar de alguns papeis – se não sabem, a principal função de um burocrata é passar o papel para outro, que, ao final do processo, arquiva-o – quando alguém me pediu para encerrar minha profunda reflexão sobre o papel do momento (burocratas são, às vezes, adoradores de papel) e colaborar num processo seletivo de alguns pretendentes a um trabalho naquele setor importantíssimo onde eu desempenhava uma função qualquer. Como também sou professor, acho que se lembraram de pedir meu apoio em uma difícil seleção. De dez candidatos para quatro vagas, opinei, entre outros três, por uma jovem que era muito simpática e tinha, entre suas preferências, o gosto por coisas do Oriente – era inclusive professora de Yoga.  E ela foi a primeira a me falar da medicina ayurvédica e Ayurveda.

O que é Ayurveda

Ayurveda: um apanhado básico dos princípios

Esse longo preâmbulo serviu também para mostrar que o conhecimento nasce nos locais mais improváveis. De algumas conversas que tive com aquela colega, o que mais me intrigou foi saber que a medicina ayurvédica já contava com mais de 7 mil anos, o que a torna um dos mais antigos sistemas da prática médica da humanidade. Na Índia, ela continua a ser a medicina oficial. A Ayurveda está se difundido em todo o mundo por ser uma técnica eficaz de um tipo de medicina tradicional. No Brasil, ela é praticada por psicólogos e fisioterapeutas e aos poucos está sendo inserida no sistema público de saúde. Alguns livros já estão disponíveis também para a nossa leitura.

A bem dizer, a medicina ayurvédica foi a base para a medicina tradicional chinesa, para a medicina árabe, a romana e a grega. No Japão, a medicina ayurvédica bebeu em várias fontes e também levou aos japoneses várias contribuições, porque a necessidade de atender a populações gigantescas e pobres levou a que ambos os países buscassem uma medicina barata e eficiente.

A palavra “ayurveda”, significa, em sânscrito, ciência (veda) da vida (ayur). A principal ideia dessa prática milenar é considerar que a doença nasce antes de ser percebida fisicamente, pois ela é fruto de desequilíbrios que tendem a aumentar com o passar do tempo, se não corrigidos. Isso significa que, para a medicina ayurvédica, a enfermidade nasce muito antes de temos seus sintomas físicos.

Cinco elementos e os três “doshas”

A sabedoria indiana projeta como base filosófica da medicina ayurvédica a existência de elementos e o que essa prática médica chama de “doshas”. Intrigou-me muito esse conceito, que tem em sânscrito o significado de culpa, transgressão. Curioso pensarmos em medicina com o conceito de culpa ou transgressão. A ideia não tem o significado moral religioso, mas, sim, traz a noção de algo que se tenha feito para proporcionar um desequilíbrio ao corpo, porque, a partir da sabedoria indiana, toda a medicina passou a entender a doença como um desequilíbrio orgânico. A tradução, para o corpo, portanto, de “dosha” aproxima-se mais de desequilíbrio. E o que desequilibra o corpo e gera a doença? Forças. Elas aparecem em cada um dos três tipos de “dosha”. Se elas se desequilibram, ou seja, estão em presença ou ausência em forma desequilibrada, a pessoa adoece.

Antes, porém, de ingressarmos nas doenças, temos que caracterizar os três “doshas”. Não há como falar neles sem citar seus nomes sâncritos: Vata, Pitta e Kapha. Todos os indivíduos da espécie humana, segundo a medicina ayurvédica, possuem os três “doshas”, mas em proporções variadas. Como já dissemos no parágrafo anterior, se houver excesso ou carência de um dos “doshas”, a pessoa entra em desequilíbrio e adoece.

Como restabelecer o equilíbrio, em caso de ser constatado um desequilíbrio? Vários são os caminhos e eles podem ser combinados: exercícios físicos, meditação, dietas, massagem, yoga,  plantas medicinais.

O “dosha” Vata combina dois elementos da natureza: ar e éter. Ele tem como características a leveza, a secura e o frio. Quem tem o predomínio de Vatra é magro, ativo e costuma ter a pele seca, com alguns problemas eventuais de constipação dos intestinos. Assim como evitar alimentos amargos, pessoas com predomínio de Vata, segundo a medicina ayurvédica, devem evitar o frio e a umidade. Há quem diga que Vata signifique gás, mas ele não é gás, mas a força que, quando em excesso, acaba por produzir gás.

O “dosha” Pitta liga-se aos elementos da natureza fogo e água, tem como características a quentura, a oleosidade e também a leveza. Pessoas com predomínio de Pitta são ativas e com boa conformação física, com tendência a serem irritadiças e “nervosinhas” ou extremamente tensas, por isso devem evitar alimentos salgados e picantes, para não aumentar o seu “calor” na digestão. Quem tende a excessos de Pitta, tem sintomas de febre e infecções. Há quem pense em Pitta como bile, mas Pitta não é bile, apenas a força que, quando em excesso, acaba por produzir a acidez, a bile.

O terceiro “dosha”, o Kapha, tem o significado da força que gera e possui a qualidade da água e da terra, por ser justamente formado por esses elementos da natureza, daí suas características são umidade, peso e o frio. Quem tem predomínio Kappa é grande, pesado, tendendo a ser obeso, então devem evitar alimentos úmidos, frios e pesados, como massas e arroz. No desequilíbrio, tende a problemas respiratórios, dado o excesso de muco que produzem.

Segundo a medicina ayurvédica, cada pessoa é fruto da combinação dos três “doshas”. Como numa dinâmica combinatória, a natureza estabelece, quando somos concebidos, uma mescla das características de cada “dosha”, fazendo de cada ser uma identidade absolutamente única, que se traduz nos traços físicos – altura, compleição, cor e formato dos olhos, etc. –, nos traços mentais e de comportamento – como dormimos, pensamos, sonhamos, como reagimos a extremos, como atuamos diante de situações que exigem nossas emoções, como administramos nosso dinheiro – e nos traços intelectuais – se somos introspectivos, calculistas, sonhadores, trabalhadores disciplinados, etc. Também já nascemos com tendências a suscetibilidade a fatores climáticos e a alimentos, também a alterações bruscas neles. Segundo a medicina ayurvédica, é importante compreender nossa constituição, para que possamos ter consciência de nossas forças e predisposições a certas doenças ou padrões negativos de comportamento. Em uma palavra, devemos conhecer para saber respeitar os limites de nosso “prakriti”, ou seja, nossa natureza.

Controle dos doshas, uma das chaves da cura

Não é demais lembrar, na medicina ayurvédica, que ela é uma prática médica, portanto, pretende aliviar o sofrimento das pessoas. Isso é conseguido através do controle dos “doshas”, feito por meio dos seis sabores que são assim classificados: salgado, picante, adstringente (como o sabor ácido de uma laranja, por exemplo), amargo, doce e azedo. Para a medicina ayurvédica, esses sabores podem agravar ou, ao contrário, pacificar diferentes “doshas”.  O equilíbrio dos sabores leva-nos a prevenir doenças e a promover nossa própria cura, pela compreensão de nossas relações interpessoais.

Para isso, é importante conhecer seu “dosha” predominante. Por meio de questionários de preferências ou de hábitos, podemos promover um autoconhecimento que nos torna mais próximos dessa autoconsciência que só nos trará benefícios, porque permitirá que conheçamos nosso biótipo na classificação da medicina ayurvédica.

O primeiro passo é promover o máximo de sinceridade ao responder cada pergunta. Não poderemos fugir de nós mesmos, porque isso realmente será inútil: mais cedo ou mais tarde, deveremos enfrentar nossas limitações. Nos questionários, têm-se algumas convenções: 0 ponto para algo que não se aplica a nós; 1 ponto para algo que se aplica algumas vezes; 2 pontos para algo que na maioria das vezes (quase sempre ou sempre) se aplica a nós.

Resultados de questionários e características

Para o “dosha” Vata, diz-se que a pessoa é mental, com dificuldade para ficar presa à terra, por ser muito inquieta.  As afirmativas Vata são estas:

  1. Sou mais friorento que a média das pessoas;
  2. Tenho dificuldade em conciliar o sono ou a ter uma noite de sono tranquilo;
  3. Tenho pele seca no inverno;
  4. Gasto muita energia para me movimentar, tendo a surtos;
  5. Meus hábitos alimentares são irregulares, assim como meu sono;
  6. Gases e prisão de ventre acontecem com certa frequência;
  7. Não engordo com facilidade, tendo a ser magro;
  8. Minhas mães e pés são frios;
  9. Faço tudo com rapidez;
  10. Tenho dificuldade de memorizar coisas;
  11. Sou vivo e animado;
  12. Aprendo coisas novas com facilidade;
  13. Ando leve e rapidamente;
  14. Sou indeciso;
  15. Tenho ansiedade crônica;
  16. Falo muito e muito rapidamente;
  17. Ajo com emotividade e mudo de humor com frequência;
  18. Imaginativo, mente ativa e inquieta;
  19. Agito-me com facilidade;
  20. Aprendo rápido, mas esqueço rápido.

Para o “dosha” Pitta, diz-e que a pessoa é passional, sensível, irritável. As afirmativas Vasta são:

  1. Sinto muito calor, mais do que outras pessoas;
  2. Transpiro demais;
  3. Sou muitíssimo organizado;
  4.  Não sou de sentir frio;
  5.  Cabelos louros ou ruivos, com tendência a ficarem grisalhos ou desaparecem (calvície);
  6.  Meu apetite é de leão;
  7. Intestino irregular, mas mais fácil ter diarreia do que prisão de ventre;
  8. Não me sinto tranquilo quando pulo uma refeição ou uma refeição atrasa.
  9. Considero que sou muito eficiente.
  10. Sou decidido, resoluto;
  11. Fico irritado e zangado com muita facilidade;
  12. Vivem a me dizer que sou teimoso;
  13. Sou impaciente;
  14. Busco a perfeição em tudo que faço, por isso, sou detalhista;
  15. Zango-me com facilidade, mas depois esqueço;
  16. Não tolero nenhum alimento quente ou picante;
  17. Não sou chegado a desavenças;
  18. Gosto de desafios e sou muito determinado a vencê-los;
  19. Aprecio muitíssimo alimentos frios (sorvetes, bebidas geladas);
  20. Sou crítico de mim mesmo e dos outros.

Para o “dosha” Kapha, diz-se que a pessoa é sossegada, pachorrenta, sensorial. As afirmativas Kapha são:

  1. Não gosto de tempo frio e úmido;
  2. Engordo com mais facilidade do que a maioria da humanidade;
  3. Acumulo gordura com muita facilidade;
  4.  Tenho cabelos grossos, escuros, ondulados.
  5. Pelo macia, suave, pálida;
  6. Sou grandão, de constituição física sólida;
  7. Tenho que dormir pelo menos oito horas bem dormidas por dia;
  8. Tendo a ter problemas respiratórios, como congestão, uco excessivo, asma, sinusite;
  9. Sou relaxadão, sem pressa;
  10. Sou sereno, tranquilo, difícil de me agitar;
  11. Pulo refeições sem me sentir mal;
  12. Calmo por natureza, quase nunca fico zangado;
  13. Durmo como uma pedra;
  14. Não aprendo rapidamente, mas retenho bem as informações, pois tenho boa memória;
  15. Sou carinhoso, meigo, sereno;
  16. Tenho digestão lenta, por isso me sinto pesado após comer;
  17. Vigor e resistência física definem-me bem;
  18. Ando devagar e de forma cadenciada;
  19. Durmo bem cedo, acordo meio atordoado, sou lento para iniciar o dia;
  20. Como devagar, também faço tudo devagar e com método.

 

As pessoas devem pontuar-se como explicado anteriormente. O “dosha” que apresentar maior pontuação será o biótipo predominante.

Há, entretanto, uma curiosidade sobre os “doshas”: as pessoas agem segundo o “dosha” dominante, mas o de menor pontuação é aquele que norteia a vida delas, ou seja, sinaliza para as metas. Um exemplo simples: quem tem predomínio Kapha, tende a ser gordo e, se tiver menor pontuação Vata, perseguirá a tendência a ser magro; se for menos Pitta, como é lento e calmo, procurará ser mais rápido, eficiente, resoluto.

Aprofundamentos são necessários para se conhecer melhor cada um dos “doshas”, mas já temos aqui uma base para começarmos a conhecer melhor a medicina ayurvédica.

 

Claudionor Aparecido Ritondale

 

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